Só poderia ter sido extremamente
natural, senão o inusitado teria-lhe furtado nos detalhes a pouca
sanidade preservada. Por isso, quando acordou naquela manhã comum,
aquele pequeno pedaço de pele no travesseiro sequer a alarmou. Bem,
diga-se a verdade: a ignorância inicial do fato de ser pele diminuiu o
impacto do achado.
Instintivamente
as mãos percorreram o rosto procurando o desfalque. E lá estava ele,
indolor ao toque, a despeito da constatação do toque de uma carne
exposta. Olhou de novo o pedaço de pele que mais parecia extraído por
uma tesoura. O formato era irregular, mas as bordas tinham aquele
acabamento fino e definitivo que só um objeto cortante opera.
Que
loucura. Deitou de novo, pôs o pedaço de pele sobre a barriga e quis
descrever com os dedos um círculo ao redor, quis circunscrever aquela
única prova de uma insanidade que se insinuava. Mas, uma familiar
depressão na pele, alarmou-a. Mais um pedaço faltando. E, de novo,
faltou-lhe a constatação plena daquela anormalidade, só um cansaço
estranho que lhe dizia que não procurasse aquele novo perdido. Mas havia
nela um senso de obrigação latente e talvez a semente da sensatez que
lhe faltava para desesperar com aquela situação. Por isso, pôs-se a,
pacientemente, procurar pela cama o pedaço da pele da barriga. Estava no
chão, incógnita e imprevisível como o primeiro pedaço constatado.
Sentou-se impassível, sem saber ao certo o que pensar, como agir.
Instintivamente quis assegurar-se de seu corpo, entretanto, a meio
caminho de abraçar seus próprios ombros notou que lhe faltavam pedaços
das laterais dos braços. Soube naquele momento que, cada parte de seu
corpo haveria de lhe contar uma falta.
Obrigou-se a pensar praticidades: como sair na rua, desfalcada, exposta, estranha?
Desabou
na cama e, pela primeira vez sentiu um incômodo no alto das costas,
como um pedaço de papel entre si e o lençol. Definitivamente era pele. E
em um tamanho estranhamente anormal para ter saído de qualquer lugar
que fosse. Arfou um pouco, a lucidez começara a cobrar o preço da lide
com aqueles fatos. Sentiu que era preciso desesperar-se, pedir socorro,
chorar e praguejar contra todos os céus, todos os panteões que habitam a
imaginação humana. Ainda eram constatações racionais, mas que anteviam o
que contavam as suas mãos já num discreto temor.
Espelho.
Precisava da indiscrição violenta de um espelho. Hesitou só um pouco.
Assemelhava-se à brandura irônica de uma cólica menstrual de aviso,
antecedente, indicativa, existente apenas na incômoda medida. Mas ela
sabia que era preciso sangrar.
Espelho e surpresa. Espelho e
incredulidade. Tão completa estava a pele, como se acabasse de ter sido
tecida e tão real era como os pedaços de pele em sua mão, sem
decomposição ou sangue, como um invólucro inorgânico. Tocou-se de novo e
sentia as depressões infalíveis nos pontos onde o espelho mostrava a
constância de todos os dias. Olhou os pedaços nas mãos e supôs que o
espelho não os refletiria. Lêdo engano. Pendiam na mão refletida com a
mesma força de existência que pendiam da mão que se deixava refletir no
espelho.
Estava louca. Temeu tanto que o dia chegasse. Temeu ir
tornando-se demente ou maníaca, depressiva ou delirante, mas eis que a
condição lhe chegava de chofre, sem indícios, avisos ou escapatória.
Estava
louca e, por isso, vestiu-se com a incompostura que temiam seus pais e
muniu-se de todas as ações que causavam certo ou todo receio em seus
pares. E foi à rua. E nem sequer um olhar de espanto lhe foi lançado ao
rosto que sentia mutilado sob os toques frequentes de seus dedos entre
incrédulos e cuidadosos.
E, se andava na rua, certificava-se de
que um pedaço seu não ficasse pelo caminho. Daí suas voltas e olhares ao
redor, enquanto todos faziam uma reprovação silenciosa de sua roupa de
seus modos compulsivos e desalinhados. E nunca viam sua epiderme pelo
caminho, nem seu desespero, que dirá seu alívio breve de capturar no
chão mais um pedaço de si. Viam só a inconstância nervosa da dúvida de
algum esquecimento ou falta de rigor na vigilância. Eram seus pedaços
por aí.
Peço que me perdoe o atalho brusco na história. É que, se
pretendo ser sucinta no clímax do ocorrido, alongo-me um pouco na
justificativa de como se deu a história do pequeno escrito de pele.
Assim, vês sem dúvidas, que não era assim tão disparatado atar seus
próprios pedaços e entregá-los bordados de palavras a quem lhe exigia um
legítimo pedaço seu. Pensou sim, claro, na inadequação de seu pedaços
constituindo o mal remendado livro. Mas, veja bem, só o que lhe faltava
abundava em medida de uma entrega.
Originalmente publicado no Diário de Bordo Bordado a Bordô