quinta-feira, 28 de julho de 2016

Strange Fruit - Billie Holiday e a biografia de uma canção










Sinopse da Editora: 'Strange Fruit' é uma poética canção de protesto contra o racismo. Na voz de Billie Holiday, a canção adquiriu imensa força expressiva, afetando profundamente todos que a ouviam. Neste breve mas rico relato, o jornalista David Margolick nos abre uma janela para um mundo: os Estados Unidos dos anos 30 e 40, um país dividido entre negros e brancos, progressistas e retrógrados, no qual Holiday ousou levar o terror do linchamento para dentro dos cafés e boates.

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Esperei esse livro por quatro anos. Quando lançado ele não era nada barato. Quando a poeira baixou, difícil encontrar...
Minha grande curiosidade era entender o fenômeno Strange Fruit que, para mim, é mais de letra que de música. E, nisso, David Margolick se mostrou hábil. A maneira como os diversos grupos étnico-culturais receberam o impacto de Strange Fruit diante de seus contextos ao longo de várias décadas é uma sacada muito boa do livro.
Mas a decepção ficou por conta do trato habitual empregado à Billie Holiday. Coisa que tinha visto na biografia dela escrita por Sylvia Fol.
Explorar a dúvida se Billie tinha ou não ideia do que estava cantando é um recurso que, embora renda páginas e relatos de histórias, flerta com o desrespeito à memória de Billlie. Não vejo má intenção, mas essa folclorização da mulher irresponsável ou tresloucada que não se importa com a própria integridade e que é quase fútil impede de ver o quanto Billie sofreu pelo simples fato de ser mulher.
Acho que o livro vale a pena, especialmente para os que querem entender a canção como fenômeno de consciência.

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Escrito sobre a pele




Só poderia ter sido extremamente natural, senão o inusitado teria-lhe furtado nos detalhes a pouca sanidade preservada. Por isso, quando acordou naquela manhã comum, aquele pequeno pedaço de pele no travesseiro sequer a alarmou. Bem, diga-se a verdade: a ignorância inicial do fato de ser pele diminuiu o impacto do achado.
Instintivamente as mãos percorreram o rosto procurando o desfalque. E lá estava ele, indolor ao toque, a despeito da constatação do toque de uma carne exposta. Olhou de novo o pedaço de pele que mais parecia extraído por uma tesoura. O formato era irregular, mas as bordas tinham aquele acabamento fino e definitivo que só um objeto cortante opera.
Que loucura. Deitou de novo, pôs o pedaço de pele sobre a barriga e quis descrever com os dedos um círculo ao redor, quis circunscrever aquela única prova de uma insanidade que se insinuava. Mas, uma familiar depressão na pele, alarmou-a. Mais um pedaço faltando. E, de novo, faltou-lhe a constatação plena daquela anormalidade, só um cansaço estranho que lhe dizia que não procurasse aquele novo perdido. Mas havia nela um senso de obrigação latente e talvez a semente da sensatez que lhe faltava para desesperar com aquela situação. Por isso, pôs-se a, pacientemente, procurar pela cama o pedaço da pele da barriga. Estava no chão, incógnita e imprevisível como o primeiro pedaço constatado. Sentou-se impassível, sem saber ao certo o que pensar, como agir. Instintivamente quis assegurar-se de seu corpo, entretanto, a meio caminho de abraçar seus próprios ombros notou que lhe faltavam pedaços das laterais dos braços. Soube naquele momento que, cada parte de seu corpo haveria de lhe contar uma falta.
Obrigou-se a pensar praticidades: como sair na rua, desfalcada, exposta, estranha?
Desabou na cama e, pela primeira vez sentiu um incômodo no alto das costas, como um pedaço de papel entre si e o lençol. Definitivamente era pele. E em um tamanho estranhamente anormal para ter saído de qualquer lugar que fosse. Arfou um pouco, a lucidez começara a cobrar o preço da lide com aqueles fatos. Sentiu que era preciso desesperar-se, pedir socorro, chorar e praguejar contra todos os céus, todos os panteões que habitam a imaginação humana. Ainda eram constatações racionais, mas que anteviam o que contavam as suas mãos já num discreto temor.
Espelho. Precisava da indiscrição violenta de um espelho. Hesitou só um pouco. Assemelhava-se à brandura irônica de uma cólica menstrual de aviso, antecedente, indicativa, existente apenas na incômoda medida. Mas ela sabia que era preciso sangrar.
Espelho e surpresa. Espelho e incredulidade. Tão completa estava a pele, como se acabasse de ter sido tecida e tão real era como os pedaços de pele em sua mão, sem decomposição ou sangue, como um invólucro inorgânico. Tocou-se de novo e sentia as depressões infalíveis nos pontos onde o espelho mostrava a constância de todos os dias. Olhou os pedaços nas mãos e supôs que o espelho não os refletiria. Lêdo engano. Pendiam na mão refletida com a mesma força de existência que pendiam da mão que se deixava refletir no espelho.
Estava louca. Temeu tanto que o dia chegasse. Temeu ir tornando-se demente ou maníaca, depressiva ou delirante, mas eis que a condição lhe chegava de chofre, sem indícios, avisos ou escapatória.
Estava louca e, por isso, vestiu-se com a incompostura que temiam seus pais e muniu-se de todas as ações que causavam certo ou todo receio em seus pares. E foi à rua. E nem sequer um olhar de espanto lhe foi lançado ao rosto que sentia mutilado sob os toques frequentes de seus dedos entre incrédulos e cuidadosos.
E, se andava na rua, certificava-se de que um pedaço seu não ficasse pelo caminho. Daí suas voltas e olhares ao redor, enquanto todos faziam uma reprovação silenciosa de sua roupa de seus modos compulsivos e desalinhados. E nunca viam sua epiderme pelo caminho, nem seu desespero, que dirá seu alívio breve de capturar no chão mais um pedaço de si. Viam só a inconstância nervosa da dúvida de algum esquecimento ou falta de rigor na vigilância. Eram seus pedaços por aí.
Peço que me perdoe o atalho brusco na história. É que, se pretendo ser sucinta no clímax do ocorrido, alongo-me um pouco na justificativa de como se deu a história do pequeno escrito de pele. Assim, vês sem dúvidas, que não era assim tão disparatado atar seus próprios pedaços e entregá-los bordados de palavras a quem lhe exigia um legítimo pedaço seu. Pensou sim, claro, na inadequação de seu pedaços constituindo o mal remendado livro. Mas, veja bem, só o que lhe faltava abundava em medida de uma entrega.





Originalmente publicado no Diário de Bordo Bordado a Bordô