Livremente inspirado no conto Felicidade Clandestina do livro homônimo de Clarice Lispector
Há poucas coisas no mundo que se assemelham às delícias do início de uma relação. Os cortejos, as exibições e cheiros especiais, excepcionalmente produzidos por cosméticos, perfumes e transpirações entre contidas, desejosas e expectantes. É claro que não se joga fora um amor cotidianizado, que se ajusta à continuidade, aos construtos laboriosos de uma relação. Há outros prazeres, outros retornos.
Mas o início, o flerte, a paulatina conquista que opera as ligas entre urgência e continuidade são irmãos da excitação de quem gosta de esperar a chegada ou a aquisição de um livro. E depois cheirar suas folhas novas, sua sedução estudada nas capas, manusear o formato e procurar na casa o espaço, o lugar. Para aqueles que adicionam ao amor as ambivalências da posse, arremata-se o ritual com a escrita visível mas não agressiva do próprio nome. Eu prefiro acalmar o corpo, participá-lo racionalmente da beleza do momento, escolher uma caneta de ponta mais fina possível e desenhar meu nome com vagar, como se essa assinatura o assinalasse também inscrito em minha prateleira afetiva.
Foi por esse gosto que, gradualmente fui desenvolvendo minha preferência pela compra virtual, que conjuga a espera ao processo. Não suplanta a delícia de comer com os olhos as capas em uma bem abastecida livraria. De folhear a esmo e de se deparar com títulos inusitados, com a festa para os olhos que são as pratileiras contínuas, extensas. Mas dá aquela deliciosa sensação do contar ansioso dos dias, das conjecturas de sinistros que podem atrasar a entrega, do misto de quase alegria e suspense do dia previsto. E da curiosa sensação de, num dia inesperado, deparar-se com um pacote insuspeito na chegada do trabalho.
É um namoro na ausência, como quem espera o amante que há de chegar cheio de novas e curiosidades, cheio de um novo mundo adquirido na escolha. E gosto dessa metáfora, do namoro, dos amantes, porque tantas vezes dormi só pela impossibilidade física de manter-me acordada, pelo corpo exaurido até o limite da resistência para manter a leitura, como quem desarruma os lençóis e as fronteiras do corpo e da intimidade numa cama de dois. Talvez por isso, haja dias em que minha cama fica repleta de livros, como uma legião de amantes que me esperam, que espreitam meu desejo e curiosidade.
Há quem diga de consumismos e fugas dessas nossas relações.
Não ligo, eu amo.
Nenhum comentário:
Postar um comentário