sábado, 20 de abril de 2013

O Caderno Rosa de Lori Lamby








Sinopse da editora: O livro, em grande parte escrito na forma de diário, apresenta uma menina de oito anos que vende seu corpo incentivada por seus pais proxenetas. A obra é, sim, obscena e põe em cheque a moralidade dos leitores, pois é quase impossível realizar uma leitura frígida dos relatos de Lori Lamby. Mas, apesar do impacto inicial causado pelo tema da pedofilia, o livro vai muito além. A própria literatura é alvo de obscenidades: gêneros intercalados, cartas, relatos, citações pervertidas de grandes autores como D. H. Lawrence, Henry Miller ou Georges Bataille e um Caderno negro dentro do Caderno rosa de Lori. Aquilo que, a princípio, aparece no texto como possíveis e singelos erros de escrita de uma criança recém-alfabetizada aponta para um estudo lexicológico, para uma etimologia das sensações fazendo soluçar a gramática.
"O Caderno Rosa de Lori Lamby" ainda guarda um segredo sobre o verdadeiro narrador da história. Apesar da obviedade do título sugerir que a pequena Lori Lamby é a narradora-personagem de seu caderno, é possível levantar dúvidas a esse respeito já que seu pai - gênio incompreendido - resolve escrever "bandalheiras" seguindo o conselho de seu editor.
Neste ponto reside o aroma de crítica ao mercado editorial e a sua avidez por best-sellers e temas consagrados como a pornografia.


***


Eu sempre me acreditei uma cabeça arejada mais tendente à liberdade e a afirmação dela do que aos impulsos conservadores que me acometem. Isso sempre me deu uma certa tranquilidade, desde a adolescência. Mas, quando me deparei com O Caderno Rosa de Lori Lamby, tive que colocar a certeza em suspensão e mensurar até onde ia minha capacidade de lidar com temas desafiadores, com certezas indubitáveis, com conceitos que, nem mesmo eu havia colocado sob análise.
Eis que me deparo com uma criança sexualizada, que transita por experiências sexuais e descrições destas com uma acintosa leveza infantil, desconcertante, quase perversa para mim, tão partidária da defesa da inocência infantil.
Em alguns parágrafos eu quase acreditei que Hilst forçava a barra com tudo tão descrito e analisado com o repertório, inclusive vocabular, de uma criança, dando a entender que experiências que , inclusive tecnicamente, do ponto de vista científico, são rotuladas como agressivas para esse estágio do desenvolvimento humano podem ser absorvidas com certa naturalidade pelas crianças.
Fiquei em dúvida, mesmo depois do término da leitura, de onde encaixar esse incômodo, já que, diferente do que fazemos com os indícios de sexualidade infantil no dia-a-dia, - diante da escolha de ler até o fim - eu não poderia tergiversar, eufemizar, fugir, estancar ou ressignificar o processo. Estava ali o livro acabado, publicado, inteiro.
Curiosamente, nem temporariamente, coloquei-o na estante das indecências, onde não me recordo de haver colocado algum livro, de tão específico que é o rótulo. Mas o incômodo indicava disparidades entre os quadros conceituais do livro e o meu.
Então, dias depois decidi, com todas de mim, que na verdade, eram coisas incômodas de falar (óbvio), porque o sexo é eivado das controvérsias produzidas pela combinação prazer + moral. E que, esta segunda não nos permitia lidar com sensações sexuais de uma criança sem acessar em nós os limiares entre prazer e rotulações imorais e amorais, destoantes com a aura de pureza e isenção da infância.
O incômodo maior estava no tratamento sem uma culpabilização discursiva do personagem que podemos rotular como abusador, uma vez que, protagonista do prazer de uma criança, ele estava em um lugar deslocado do habitual, como se a maldade sempre imputada ao ato estivesse, assim abordada, eufemizada ou esquecida, quando a todo tempo se insta por não esquecer o quão prejudicial pode ser a uma criança.
No início -  e início, aqui, é o tempo de leitura e os meses após - minha conclusão atual era só uma sensação. Hoje ela está racionalmente sedimentada: a sexualização e o abuso pode ter resultados ambivalentes. Excetuando aqueles casos em que só há agressão, os que não se desenvolvem de maneira claramente agressiva podem trazer a dimensão do prazer para a criança. E aí o caráter agressivo do ato não deixa de existir. Por mais prazer que haja, é uma agressão ao desenvolvimento, apresenta a sexualidade em uma modalidade que a criança não tem condições de gerenciar e estar em pé de igualdade para negociações e autoproteções. Daí a ser mais perverso o ato a partir da condição extremamente desigual em relação ao abusador. Por duro que seja crer, esse lado é possível e nos cabe vê-lo, discuti-lo, considerá-lo nos debates. Não para desresponsabilizar, mas para entender o que se processa com a criança. Mas tendemos a ignorar, porque nos dói, nos envergonha e amedronta lidar com essa interface. E essas sensações interferem na leitura do livro e, arrisco dizer, em seu entendimento.
O problema é que, nesse livro, o abusador pode atender por outros rótulos, bons inclusive. E se não houver certas tranquilidades, e se a linguagem de Hilst for eficientemente conectada à sexualidade do leitor, a culpa pela excitação que certas construções do livro podem provocar, pode acabar ensombrando ou apagando a percepção dos méritos do livro. Por isso, creio que deve haver leitores em momentos ou sob construções aptas ou não a ler essa obra de Hilda Hilst que, em matéria de provocar a reflexão, é polivalente.

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