quinta-feira, 2 de maio de 2013

O Último Dia de um Condenado








Sinopse da editora: Em um romance de surpreendente modernidade, o grande escritor do romantismo se joga de corpo e alma contra a pena de morte. Composta de um texto principal - o diário dos últimos dias da vida de um condenado -, de uma peça na qual personagens inventados por Victor Hugo criticam ferozmente a obra (prefácio à edição de 1829) e de um longo panfleto em defesa da causa (prefácio de 1932), esta edição vem contribuir para um debate em torno de uma discussão que alguns ainda tentam reviver no Brasil.







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A estante de livros de minha mãe é uma estante mágica que, eternamente grávida, a cada vez que limpo ou reorganizo, descubro uma lista de títulos que nunca vi antes e dos quais minha mãe, em geral, sabe as histórias de chegada. Um vizinho que doou, uma compra no sebo, uma devolução tardia, amigos que esquecem em sua mão, amigos que presenteiam. Pois bem, eis que eu me encontro com esse título incomum entre outras amenidades adolescentes e, sem nada que me angariasse mais curiosidade, resolvi ler.
Levei três dias para ler, entre os afazeres de faculdade, casa e namoro, durante os quais, eventualmente algo desse livro se reelaborava em mim por conta de sua abordagem.
O crime do protagonista não tem a relevância que é de se esperar na trama. Como mitigante ou agravante, sequer há um questionamento sólido sobre a natureza da violência do crime, de sua gravidade ou não. O que há é a caracterização generalista de um condenado, ou antes, uma caracterização generalizante, como uma epiderme que pode moldar-se a muito casos, se não a quase todos. Ou todos?
E o protagonista, dono dessa epiderme arquetípica é um veículo incômodo das sensações propostas no texto. Parece que ele ali está para dar seus pareceres contextuais de um catálogo perverso de sofrimentos que se enfileram para atormentá-lo. É como uma voz humana, reconhecível para nós, traduzindo uma tortura que mesmo paulatina, de tão cotidiana, subverte qualquer traço de objetivação de humanidade no caminho à guilhotina. Parece que as pequenas iniciativas de alguns personagens de amenizar o caráter atroz de seu destino se apequenava como um paliativo quase cínico diante da vileza da pena capital.
Foi um incômodo necessário lê-lo. Em alguns momentos de tensão o texto pareceu catalisar, nas minhas lembranças disperas, as conclusões diversas sobre debates acerca dos direitos humanos e sobre o discernimento do direito a ceifar uma vida.
É daquelas leituras, para mim, pedagógicas. Não necessariamente de introdução ao tema, a depender do grau de intimidade ou discussão, mas, como um catalisador eficiente de motivações, conceitos, opiniões. Pareceu desnudar a crueza dos detalhes ignorados no enunciado geral da pena de morte, toda sorte de suplícios a que se condena quem pode sentir. Durante as semanas seguintes à leitura dele recomendei-o  apaixonadamente, como se fosse um elixir, quase uma epifania. Está entre meus preferidos. Qualquer outra mensuração que eu faça se submete a essa sensação de que ele conversa com o que há de mais humano em mim. E que não sei o que é (ainda?).

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